17 fevereiro 2014

Antoniette


 Ela ajeita o corpete e entra no quarto.
 -Chamou, mestre Clous?
 O homem gordo, calvo de cabelos brancos a olhou com lascívia de cima de sua cama.
 -Você sempre sabe quando eu preciso de você... Minha querida Antoniette –sorriu ele.
 Ela fechou a porta atrás de si e deitou-se com ele. Sempre sabia quando ele a queria. Até preferia que ele a quisesse, pois a novata morria de medo dele.
 O nome da novata era Belle.
 Não era seu verdadeiro nome, mas ele dava um novo nome para as suas meninas, assim que estivessem em seu “poder”. Antoniette detestava o que Clous fazia, tanto como agente duplo quanto comercializar garotinhas. Ele se livrava dos tutores legais e as levava sob o pretexto de que seria o guardião temporário, e as vendia para pessoas que as “adotavam”.
 Antoniette só gostava dos cachorros que ele criava, mas também morria de dó deles, quando começavam a apresentar “os sinais”. Ela largou o velho roncando e babando em cima de sua luxuosa cama. Queria ver o seu bichinho de estimação. Partiu seu coração vê-lo apresentar os sintomas que esperava. Clous logo o colocaria no outro canil, junto com os outros que já estavam completamente mudados.
 Cerca de duas horas depois, ela viu Clous saindo, e levando consigo suas raivosas crias negras. Com certeza mais uma família seria arruinada. Ela o acompanha até o local onde os pais são transformados em um monte de pedaços inanimados, pelas criaturas de estimação. As crianças são protegidas e levadas para a casa dele, onde Antoniette interpretaria seu papel de “mãe” novamente...


Magamesk

06 novembro 2013

Você me leva em seu bolso
Eu te levo sempre trancada em meu coração 

Mas se todo mundo é igual, você é exceção 
Minha esperança cresce em seus passos,
Já não estou tão opaco
E lá em cima se desfaz o criado,
Se completa o indiscreto,
Se humaniza a mente aberta...


Presente de um amigo *---*

02 outubro 2013

A Galinha Ruiva


 Um dia, a galinha ruiva estava ciscando no quintal e achou um grão de trigo.
-Quem quer plantar este grãozinho de trigo? -perguntou ela.
-Eu não quero -disse o pato.
-Eu também não -respondeu o gato.
-Nem eu -disse o cão.
 "Muito bem, então eu mesma o plantarei", pensou a galinha ruiva. E assim fez. Passado algum tempo, o pé de trigo cresceu e ficou maduro.
-Quem quer colher as espigas do trigo? -perguntou a galinha ruiva.
-Eu não quero -respondeu o pato.
-Eu também não -disse o gato.
-Nem eu -falou o cão.
 "Muito bem, então eu mesma o colherei", resolveu a galinha ruiva. E o colheu. Ao terminar, tornou a perguntar:
-Quem quer debulhar o trigo?
-Eu não quero -disse o pato.
-Eu também não -disse o gato.
-Nem eu -respondeu o cão.
-Muito bem, então eu o debulharei.
 E o debulhou. Depois, perguntou:
-Quem quer levar o trigo ao moinho, para ser moído e virar farinha?
-Eu não quero -respondeu o pato.
-Eu também não -disse o gato.
-Nem eu -falou o cão.
 "Muito bem, então eu mesma o levarei", resolveu a galinha.
 Quando voltou de lá com a farinha de trigo, perguntou:
-Quem quer fazer um pão com esta farinha?
-Eu não quero -disse o pato.
-Eu também não -disse o gato.
-Nem eu -disse o cão.
-Muito bem, então eu mesma o farei. E fez um pãozinho que ficou muito gostoso.
-E agora, quem vai comer o pão?
-Oh, eu o comerei -disse o pato.
-Eu também -disse o gato.
-E eu -disse o cão.
 Então, a galinha ruiva ficou toda arrepiada e lhes disse:
-Pois fiquem sabendo que não vão provar nem um pedacinho, seus preguiçosos.
 Chamou os pintinhos e repartiu o pão com eles. O gato, o pato e o cão  ficaram muito tristes e aprenderam o quanto é feio ser preguiçoso.

De Chimney Corner Stories

Feliz dia das Crianças! 

28 setembro 2013

Mindi

 
 Era dezembro, e descemos do ônibus fretado da empresa, como fazíamos de segunda a sexta, minha irmã e eu ao voltarmos do trabalho. E assim que pisamos na calçada, um cachorro magro, vagando com seu ar faminto e sofrido passa por nós e meu peito dá um nó. Viro para a minha irmã, apontando o pobre animal e falo "Morro de dó de ver isso. Se ao menos eu tivesse como ajudar...", ela concordou comigo, mas sabíamos que não teria como levá-la para casa, por ser de porte médio-grande e não termos nada em mãos para levá-la, por já termos três gatos, e pelo último e derradeiro fato, de que meu pai provavelmente surtaria.
 Ventava muito naquela tarde nublada e abafada, anunciando a chuva que cairia mais tarde. Estávamos na cozinha quando escutamos minha mãe nos chamar da sala da televisão enquanto olhava a chuva torrencial que caía. Ela estava olhando pela janela para o outro lado da rua e nos apontou um cachorro que tentava se abrigar da chuva na frente da casa de nosso vizinho de frente. Ela ainda o olhava quando disse "Que dozinha...", percebi que era aquele mesmo cachorro que passara por nós quando descemos do ônibus, contei à minha mãe o ocorrido, e ela, virando-se para mim, perguntou "Você teria coragem de trazer ele pra dentro da nossa garagem?" eu a respondi dizendo "Mantenha o portão aberto". Saí com um guarda chuva na mão e atravessei a rua, enquanto o pobre animal me olhava e tremia de frio e provavelmente de medo, este último estampado em seus olhinhos suplicantes. Eu chamei para que me seguisse, mas apenas alternava seu olhar para mim e para o chão e a chuva. Minha irmã se juntou à mim, atravessando a rua sem guarda-chuva, entreguei o meu para ela, me aproximei do animalzinho, segurando-o pelas axilas e delicadamente puxando, forçando-o a atravessar a rua conosco, já que minha irmã nos colocou sob o grande guarda-chuva junto com ela. Observei que era uma fêmea, e a coitada não ofereceu resistência alguma enquanto eu a levava para o abrigo. Ao passarmos pelo portão, minha irmã o fechou e foi juntar-se a mim e minha mãe, que preparara uma caixa de papelão e panos secos para a chegada da nossa resgatada.
 Depois de seca, oferecemos água, que ela não tomou de imediato, mas beliscou o que minha mãe oferecera para ela comer (que no momento eu não me lembro o que era). Ela era de porte médio-grande, com o pelo amarelo desbotado, seca de tão magra, orelhudinha, patas finas e compridas, trazia uma coleira vermelha em seu pescoço, mas sem identificação alguma. Faltavam-lhe a maioria dos pelos das costas, que expunham uma pele seca, escura, sebenta e escamosa que se alastrava do meio das costas até à algumas partes do rabo. Andava meio desconjuntada, tortinha e tinha um dos olhares mais sofridos que já vi. Resolvemos deixá-la ali, na caixa entre o carro e a porta de entrada de casa, até que a chuva passasse.
 Fiquei um bom tempo com ela, acalmando-a. conversando com ela, e torcendo para que se secasse logo, pois ela tremia de frio. Logo meu namorado chegou e quando viu a cachorra, perguntou como a tínhamos conseguido, e lhe contei a história. Ele ficou ali na frente comigo, até que minha irmã veio me substituir, para que eu entrasse e tomasse um banho. Um tempo depois, meu pai chegou em casa, e perguntou à minha mãe o que aquela cachorra fazia na nossa garagem e minha mãe lhe explicou que apenas a estava abrigando da chuva e que a soltaria quando a chuva parasse. O problema é que não sabíamos quando a chuva pararia. Mas ela parou naquela mesma noite, e vendo que estávamos relutantes em devolver a cachorra pra rua, meu pai disse que tínhamos uma semana para nos livrarmos dela, porque ele não queria mais um animal em casa. Meu pai e meu namorado não entendiam porque estávamos relutantes em devolvê-la às ruas.
 No manhã do dia seguinte, comprei uma guia para ela e a levei à veterinária da agropecuária perto de casa, que atende de graça se levamos os bichinhos até lá. A cachorra não ofereceu resistência quando a levantei para colocá-la em cima da mesa e nem quando a veterinária a examinou. Feito as análises superficiais como ouvir o coração, analisar as condições da arcada dentária (que estavam péssimas, pois os poucos dentes da frente que possuía estavam gastos e amarelos), ela disse que a cadela era velha, com idade entre oito e dez anos, estava subnutrida, e a dermatite que lhe fazia perder os pelos das costas era crônica (nunca se curaria), mas tinha um meio de amenizá-la. Receitou vitamina, um shampoo especial, sabonete anti-pulgas e um vermífugo, e me disse que para saber mais detalhes (estado do sangue e se era castrada ou não), seria necessário exames mais detalhados. Voltei pra casa com ela, e depois voltei à agropecuária para comprar, além do que a veterinária receitara, um shampoo para pelos claros e ração.
 Dei banho nela com água morna, que mais uma vez se mostrou dócil e não me deu um pingo sequer de trabalho. A coloquei para terminar de secar ao sol e fui fazer o almoço e me arrumar para ir trabalhar. Quando voltamos do trabalho, tiramos fotos dela para colocarmos no cadastro que fizemos para ela, na fila de espera para entrar no canil da ONG Vira-Lata Vira-Vida. E decidimos, que se não conseguíssemos ninguém para adotá-la, e se não chamassem da fila de espera, ficaríamos com ela, pois estava velhinha. Até pensamos num nome: Mindi.
 O tempo foi passando, e não conseguimos dono para a pobrezinha, mas nesse tempo, ela já havia ganhado o coração de todo mundo em casa. Eu comprei, além da guia, um bebedouro, com comedouro acoplado, uma casinha, e roupinhas, pois ela era muito friorenta. O passeio era revezado entre todos nós, mas quem mais saía com ela eram os meus pais. Nunca mais me esqueço do dia em que fui falar com a minha mãe no ateliê dela (a Mindi dormia no ateliê, que dava para o quintal), e ela ficou me olhando, pedindo alguma coisa, que eu logo pensei que era o biscoito que eu estava comendo, mas ela o pegou delicadamente com a boca e deixou cair no chão, voltando a olhar pra mim; foi quando eu segurei a cabecinha dela entre as mãos e perguntei pra ela o que é que ela queria, esfregando as duas mãos nos pelos macios do pescoço, e então, ela disparou, foi até o portão que divide o quintal e voltou, naquela corrida desajeitadinha dela, toda feliz por eu ter entendido o que ela queria. Só então ela comeu o biscoito. Rimos bastante nesse dia, e em outro, que ela, para recusar o petisco que eu oferecia, andava de cabeça baixa, fingindo que não via que o que eu estava segurando na mão.
 Também era lindo de ver, como ela ficava parecendo uma cabritinha quando a gente aparecia com a comidinha dela. O modo como ela pousava a cabeça no nosso joelho ou perna (era mais frequente com a minha mãe), e olhava com aquela carinha de piedade, e nós fazíamos carinho nela e ela deixava a cabeça tombar na nossa mão e fechava os olhinhos, apreciando cada segundo do carinho, "como se nunca tivesse recebido carinho a vida toda", era como minha mãe costumava descrever. Mindi também adorava passear, era só mostrar a guia e falar "venha!", que ela ia até a gente, e ficava quietinha para que colocássemos a guia nela, era um doce de se ver. E quando a gente saía, era uma calmaria só, pois enquanto os cachorros se acabavam de latir por detrás do portão, ela nem ligava, e fazia de conta que nem era com ela.
 Foi fácil ensiná-la a andar na guia, mas ela se manteve teimosa até o seu último passeio, principalmente em relação aos sacos de lixo, que pareciam tão apetitosos e chamativos, mesmo estando ela de barriga cheia.
 Demorou para que ela acostumasse a ficar em casa, contando todas as fugas, foram seis, três em que consegui recuperá-la e outras três em que ela voltou sozinha, com a carinha de pau mais pedinte do mundo. Mas uma das vezes em que consegui recuperá-la, me marcou muito, pois foi no susto. Eu estava dormindo ainda, quando escuto o meu pai, que estava saindo para o trabalho, falar da porta da sala "Márcia, a Mindi fugiu, acabou de sair pelo portão!". Eu me levantei correndo, enfiei a calça jeans voando e peguei a primeira camisa que minha mão encontrou, saí descalça, peguei a guia dela no ateliê e saí correndo de casa, na chuva fria e fina que caía, sem saber pra onde aquela criaturinha tinha ido. Meu pai estava atrasado, então, não estava mais por perto para me dizer para qual direção seguir, então, segui meus instintos (que muito dificilmente falham, posso dizer sem medo), e segui na direção contrária à mão única da rua. Encontrei-a a dois quarteirões de casa, porque por sorte tinha parado para fuçar num saco de lixo, e antes de eu chegar até ela, escorreguei na beirada da guia batendo os três últimos dedos do pé esquerdo no concreto. Doeu. Muito. Mas ignorei e fui até o fujona, que já me olhava com a carinha de piedade mais culpada do mundo. Dei bronca pela fuga, passei a guia e tive de puxá-la de volta praticamente, pois a teimosa não queria mais voltar. A adrenalina de ir atrás dela foi tanta, que só quando estávamos em casa, que fui olhar como o meu cabelo estava desgrenhado (pior do que quando levantei, por causa da chuva), a camisa amassada, e os dedos sangrando, mas nem dei importância, ela estava a salvo em casa e eu também estava de volta, poupando os vizinhos de ver a minha aparência medonha.
 Alguns meses depois que Mindi estava em casa, apareceram os primeiros sintomas. Tentamos localizar o veterinário que havia cuidado de um dos nossos gatos, mas ele havia se mudado e no lugar dele, estava uma outra, que decidimos chamar. Ela colheu material para exames, e nos ligou, passando os resultados: Mindi estava velhinha, e por isso, seus rins começaram a falhar, e só havia o tratamento, mas não cura. Infelizmente, isso normalmente ocorre em cachorros idosos. Começou o tratamento, tomando soro, e com o soro, ranitidina, para manter a comida no estômago. Ela se recuperou bem, e voltamos com a rotina de todo dia por mais alguns meses.
 Mais ou menos por volta de agosto, pouco tempo depois de acolhermos uma outra cadelinha, a Preta, começamos a sentir um cheiro muito forte, mais forte do que o cheiro que impregnava o quintal e o ateliê por causa da dermatite da Mindi. Ela começou a vomitar novamente, e ela tomava ranitidina na hora do almoço. Tivemos que trocar a sua alimentação, e como a ração especial que era recomendada era muito cara (R$ 73,80 -aproximadamente- por 2kg), que agora, durava cerca de duas semanas no máximo, com as duas cachorras, e infelizmente era um dinheiro que não tínhamos, por isso, eu ou minha mãe cozinhávamos para elas, seguindo recomendação da própria veterinária. Sem óleo, uma leve pitada de sal, pra dar um mínimo de gosto, arroz com beterraba, cenoura, abobrinha, vagem, e algum tipo de carne (frango, carne moída -que a Mindi adorava- e depois tivemos que adicionar o fígado, porque Mindi também tinha anemia).
 A Preta não gostava muito dos legumes, mas aprendeu a comer tudinho, com a Mindi, que com o passar do tempo, passou a não comer mais direito, e ranitidina passou a ser dosada a duas vezes por dia, e depois dos novos exames que a veterinária fez, descobrimos o porquê do cheiro forte: quanto mais forte o cheiro, pior era o estado dos rins da pobrezinha. Durante uma semana, todo dia de noite a veterinária vinha em casa e aplicava o soro e os remédios. Disse para a minha mãe, que qualquer coisa que acontecesse, podia ser a hora que fosse, era para ligar pra ela que ela vinha, o que indicava a gravidade do caso na nossa idosa-mocinha.
 Ela deu uma leve reanimada, voltando a comer, como resultado do estimulante de apetite que a veterinária havia receitado, e da vitamina, que também havia entrado para o potinho de remédios da Mindi. Ela não comia mais tão bem, mas ainda estava comendo, e só vomitava de vez em quando, fato que a levou a emagrecer mais ainda. Ela se animava quando a chamávamos para passear, a guia ficou enorme para ela, seus passinhos lentos, haviam ficado mais lentos ainda, e ela começou a parar depois de um certo tempo, como que para descansar, e logo depois, a veterinária disse que era porque ela estava sentindo dor. Tivemos que encurtar o percurso.
 Seu quadro estava ruim, mas estava estável, e depois da última visita da veterinária, ela havia ficado amuadinha. A veterinária também nos disse, que, examinando a Mindi, dava para contar uma parte da história de vida dela, pois o seu focinho já havia sido quebrado, assim como as suas patinhas, e ela provavelmente devia apanhar bastante, motivo pelo qual ela andava desajeitada; e quando batiam, deviam amarrá-la, pois havia uma cicatriz enorme em seu pescoço, com 25cm de comprimento por 3cm de largura, sem pelos. Haviam também várias outras cicatrizes evidentes espalhadas pelo seu corpinho.
 Já não apresentava resistência para tomar os medicamentos, e começou a tomar buscopan para amenizar as dores que sentia, porque com frequência nós a víamos tremendo, sendo que não estava passando frio.
 E então, quando não achávamos que podia piorar, ela parou de querer passear, parou de comer, e as duas refeições que fez, soltou no jardim, não tinha mais forças nem para fazer suas necessidades (esqueci de mencionar que ela também tinha incontinência urinária, fato que nos levou a separar muitos panos, almofadas e dois colchões pequenos que pudessem ser trocados frequentemente).
 Foi bem rápido, seu quadro piorou, ela vomitou suas últimas refeições e já fazia dois dias que não comia, e num domingo de manhã, minha mãe foi levar o café da manhã das cachorras e conversou com a Mindi como sempre fazia e disse à ela, que se quisesse partir, que podia partir em paz, pois jamais esqueceríamos dela. Eram cerca de três da tarde, e o moço que vende balas esporadicamente aqui em casa estava chamando no portão, e quando a minha mãe atendeu, ele disse "professora, a sua cachorra tá deitada aqui no jardim, eu acho que ela morreu...", e minha mãe falou da porta para o meu pai que estava no computador "a Mindi tá no jardim, e eu acho que ela está morrendo!", meu pai disse que nem queria ver e nem se levantou da cadeira. Eu e meu namorado fomos com a minha mãe, verificar como ela estava, e constatamos o que já estávamos esperando há algum tempo, ela se fora.
 Ela ainda estava quente e molinha quando minha mãe a pegou e a colocou dentro do saco que eu segurava aberto, parecia que estava dormindo, não fosse a falta de respiração, a boca aberta e os olhos vidrados. Ajeitamos com carinho e a colocamos dentro de uma caixa de papelão, até que conseguíssemos enterrá-la como ela merecia.
 É triste ver um animal que sofreu praticamente a vida toda, sofrer até o final dela; o nosso único consolo, foi que fizemos o que estava em nosso alcance para dar um final de vida digno para esse anjinho.
 Foram apenas nove meses, o suficiente para o sofrimento dela nos marcar e nos ensinar. Ela não era linda como o labrador de Marley & Eu, não era esperta como muitos cães que vemos dar shows em competições de adestramento, mas ganhou nossos corações de um modo único e maravilhoso. Descanse em paz minha querida.
Magamesk

Mindi Dez/2012 - 22/Set/2013


*Fotos tiradas por mim, em suas primeiras acomodações, com o objetivo de colocá-la no cadastro de fila de espera para ir para o Vira-Lata Vira-Vida. Gostaria de ressaltar, caso venham comentar, que a ONG Vira-Lata Vira-Vida, tem essa fila de espera, pois a necessidade dos animais abandonados é tão grande, que nem juntando o canil municipal e essa ONG maravilhosa, não dão conta de todos os pobrezinhos abandonados. Ela estava doente e partiria logo de qualquer maneira.

João e Maria


 Agora eu era herói, e o meu cavalo só falava inglês, a noiva do cowboy, era você, além das outras três.
 Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões, guardava o meu bodoque e ensaiava o roque para as matinês.
 Agora eu era o rei, era o bedel e era também juiz, e pela minha lei, a gente era obrigada a ser feliz.
 E você era princesa que eu fiz coroar, e era tão linda de se admirar, e andava nua pelo meu país.
 Não, não fuja não, finja que agora eu era o seu brinquedo.
 Eu era o seu pião, o seu bicho preferido.
 Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo, no tempo da maldade a gente nem tinha nascido.
 Agora era fatal, que o faz de conta terminasse assim. Pra lá deste quintal, era noite que não tem mais fim.
 Pois você, sumiu no mundo sem me avisar, e agora eu era um louco a perguntar, o que é que a vida vai fazer de mim.

Nara Leão

11 setembro 2013

Acaso


No acaso da rua o acaso da rapariga loura.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.

Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,

Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loura,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Porque todas as recordações são a mesma recordação,

Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loura?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal...

Só eu, de qualquer modo não sou eu mesmo, e isso é o mesmo também.

Álvaro de Campos 
27/03/1929

28 agosto 2013

A Casa Branca Nau Preta


Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se...
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro...
Não existe manhã para o meu torpor nesta hora...
Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim...
Há uma interrupção lateral na minha consciência...
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par...
Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,
E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma...

Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois...
Um quarto estado para a alma, se são três os que ela tem...
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir...
As naus seguiram,
Seguiram viagem não sei em que dia, escondido,
E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,
Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho...

Árvores paradas da quinta, vistas através da janela,
Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo,
Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las,
Não poder eu fazer qualquer coisa gênero haver árvores que deixasse de doer,
Não poder eu coexistir para o lado de lá com estar-vos vendo do lado de cá.
E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão...

Que sonhos?... Eu não sei se sonhei... Que naus partiram, para onde?
Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteiro
Naus partem - naus não, barcos, mas as naus estão em mim,
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

Quem pôs as formas das árvores dentro da existência das árvores?
Quem deu frondoso a arvoredos, e me deixou por verdecer?
Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele,
Sentir sem auxílio de poder para quando quiser, e o mar alto
E a última viagem, sempre pra lá, das naus a subir...

Não há substância de pensamento na matéria de alma com que penso...
Há só janelas abertas de par em par encostadas por causa do calor que já não faz,
E o quintal cheio de luz sem luz agora ainda-agora, e eu.
Na vidraça aberta, fronteira ao ângulo com que o meu olhar a colhe
A casa branca distante onde mora... Fecho o olhar...
E os meus olhos fitos na casa branca sem a ver
São os outros olhos vendo sem estar fitos nela a nau que se afasta.
E eu, parado, mole, adormecido,
Tenho o mar embalando-me e sofro...

Aos próprios palácios distantes a nau que penso não leva.
As escadas dando sobre sobre o mar inatingível ela não alberga .
Aos jardins maravilhosos nas ilhas inexplícitas não deixa.
Tudo perde o sentido com que o abrigo em meu pórtico
E o mar entra por os meus olhos o pórtico cessando.
Caia a noite, não caia a noite, que importa a candeia
Por acender nas casas que não vejo na encosta e eu lá?
Úmida sombra nos sons do tanque noturna sem lua, as rãs rangem,
Coaxar tarde no vale, porque tudo é vale onde o som dói.

Milagre do aparecimento da Senhora das Angústias aos loucos,
Maravilha do enegrecimento do punhal tirado para os atos,
Os olhos fechados, a cabeça pendida contra a coluna certa,
E o mundo para além dos vitrais paisagem sem ruínas...

A casa branca nau preta...
Felicidade na Austrália...

Álvaro de Campos