28 novembro 2011

Solidão - parte I de II


 É tudo tão silencioso, tão parado, mesmo de dia. Todos se foram, e eu fiquei aqui sozinho, apreciando o pôr-do-sol com a minha solidão. Depois do acidente, muita gente fugiu, e os que sobraram se foram aos poucos. Sou o único que ainda transita por aqui. Mas eu creio que por pouco tempo. Ontem mesmo vieram dois homens da companhia de luz e religaram a energia do condomínio. Eu sempre fui muito brincalhão, e tenho a vantagem de que ninguém mais pode me ver, e os dois foram embora correndo quando mexi no interruptor à frente deles.
 Eu estou na lista de mortos e feridos do silencioso vazamento de gás há sete meses. Muitos se salvaram porque o vazamento foi de dia e a maioria estava no trabalho. Foi irônico isso acontecer justo no meu dia de folga. Quando acordei, estava aqui, mas já haviam levado o meu corpo. Ainda não me acostumei a não dormir de noite; levei mais ou menos um mês para descobrir como mover as coisas. Consegui afastar vândalos e pessoas com más intenções que vinham aqui. Só deixei a família de mendigos por causa do menininho deles, que devia ter uns quatro anos. Ele era o único que podia me ver e ouvir. Os pais se arrepiaram inteiros quando "me viram" brincando de carrinho com ele. Se mandaram na mesma noite.
 A única pessoa que realmente me faz falta é a minha esposa, que por sorte estava no hospital com a tia dela que tinha acabado de passar por uma cirurgia. Éramos casados há cerca de três anos, e estávamos planejando ter um filho. Nosso apartamento está vazio, ela se foi assim que liberaram aos moradores que pegassem seus pertences.
 Ela se foi antes que eu pudesse aprender a seguir pessoas. Mas tudo bem, eu estou evoluindo, e se um dia ela voltar, eu grudo nela. O apartamento é nosso, ou pelo menos era até antes do acidente. E eu defendi-o como pude, até os responsáveis cercarem a área novamente.
 Foi legal quando vieram pintores para repintar os prédios do lado de fora. Até hoje eu acho que eles não entendem como e nem porque as latas de tinta eram trocadas.
 Podem até achar que sou travesso, mas quando não se precisa mais dormir e sem ninguém pra conversar, a diversão passa a ser apenas uma.
 Estou sentado na varanda do meu apartamento, e posso ver as luzes da cidade daqui. Estou no escuro que seria total, caso não fosse noite de lua cheia. Eu costumava ter medo do escuro, perdi há alguns meses, mesmo porquê, seria irônico ter medo, quando eu sou o desconhecido que se move na escuridão.
 Mais dois meses se passam, e os prédios ganham uma cara nova por dentro e por fora. Colocaram hoje as placas de "aluga-se" e "vende-se". Fiquei muito triste quando colocaram uma dessas placas no meu apartamento. O meu único consolo foi que a placa era de "aluga-se". Então eu ainda tinha uma chance.
 Finalmente começaram a chegar os caminhões de mudança, aos poucos, mas pelo menos chegavam. Mais diversão para um esquecido e abandonado como eu.
 Essa semana mudou uma família bem agitada. Um viúvo com dois filhos, uma menina de dez anos com ar de rebelde e um menorzinho de cinco, hiperativo. Resolvi acompanhá-los, já que haviam alugado o nosso apartamento.
 George estava viúvo há apenas dois anos, mas mesmo assim, dava conta de tudo, com a ajuda da pequena, porém forte, Ângela, que ajudava a tomar conta do irmãozinho Thiago.
 Na primeira noite no novo apartamento, acompanhei o dia dos três, que por ser sábado, acabou com uma gostosa pizza de frango. Depois de comerem, George colocou-os na cama e foi cuidar da louça. Eu, que sempre adorei ver crianças dormindo, fui verificá-las no quarto. Ao entrar no quarto de Ângela, tive uma recepçãozinha da parte dela.
-Quem é você, o que quer aqui, e por que está nos seguindo durante o dia todo?
-Você pode me ver?! -eu estava de boca aberta.
-Ah! E te ouvir também. -paralisei.
-Ok. Vou responder às suas perguntas. Eu era um gerente de eventos, meu nome é Jack, tenho vinte e oito anos, sou, quer dizer, era dono do apartamento onde vocês moram e queria ver se vocês estragariam muito o meu ex-imóvel. Mesmo porque, eu não tenho mais coisas a fazer.
-Nossa, você é o mais coerente que eu já encontrei. Tem certeza de que está morto?
-Na verdade eu morri dormindo, por causa de um vazamento de gás há alguns meses atrás. Mas por quê a pergunta?
-Mas você viu o seu corpo, seu enterro, ou alguma coisa que te desse certeza?
-Olha, eu deitei de noite e acordei no meio da tarde do outro dia, já sem o meu corpo. E você entende do assunto por acaso?
-Sou sensitiva e já estou acostumada com seres como você. Normalmente eles me pedem ajuda, você precisa de algo?
-Apenas de companhia, pois me sinto muito só. Você é a segunda pessoa que me vê e ouve, mas é a primeira que consegue formar uma frase. Isso tudo em quase um ano.
-Então eu acho que poderemos nos ajudar. Eu não possuo amigos. É como se eu fosse invisível!
-Sei exatamente como é isso.
 Ela riu um riso tão melodioso, daqueles que transbordam nos ouvidos. E assim nasceu a nossa amizade. Acabei me tornando uma espécie de babá para ela e Thiago, que também podia me ver e não teve medo de mim, nem por um segundo.
 Durante dois anos eu acompanhei-os, ajudei-os, confortei-os. George também sabia da minha presença porque Thiago e o cachorro de estimação deles, me denunciaram logo na primeira semana. Mas como o caçula estava à vontade, e o cachorro fazia festinha quando eu chegava da escola dos meninos, George não ligou; mesmo porque, já estava acostumado com o dom de seus filhos.

 To be continued...

Magamesk

17 novembro 2011

O Cisne - parte II de II


 Ao chegar na vila, uma festa estava em andamento. A princesa ficou de longe observando o movimento, procurando por Peter.
-Procurando alguém em especial alteza? -disse Peter, surgindo ao lado dela.
-Se eu disser que és tu, se sentirá especial? -respondeu ela, conseguindo disfarçar em um sorriso a mistura de susto e alegria.
-Depende, vossa alteza.
-Peter, não estás a serviço, e não há chato algum do castelo vigiando. Além do mais estragas o meu disfarce. E do que depende?
-Perdões, "Alice". E depende de algo, como por exemplo: veio devolver a minha capa, ou pode ter usado a capa como pretexto para sua fuga da monotonia do castelo quando estás sem a minha presença e, decidistes vir atrás de mim. -explicou ele, chegando mais perto e estendendo o braço para tocá-la.
 Por um curto e eterno período de tempo, Alice sentiu uma revoada de borboletas em seu estômago, pois teve a nítida sensação de que Peter a beijaria. Mas ele apenas desatou as amarras que prendiam a capa dele aos ombros dela. Já desamarrada, a capa escorre dos ombros de Alice e cai no chão. Peter rapidamente se abaixa e a pega de volta, voltando a encarar a princesa.
-Diga-me algo, Alice.
-Sim. -disse ela automaticamente, pois estava entretida olhando os olhos verdes e profundos de Peter.
-O que levaria alguém a usar de subterfúgios como uma poção do amor, para conquistar a outra?
-Desejo desesperado e desenfreado, talvez? -respondeu ela ainda entretida com os belos olhos do rapaz.
-Não seria covardia, egoísmo, irresponsável e incoerente dar poção do amor à uma pessoa clara e irrevogavelmente apaixonada?
-Sim. Mas quem seria tolo o suficiente para não perceber um coração apaixonado?
-Você, Alice.
-Como assim?
-Me disseste há alguns instantes que viestes para me ver. Por qual outro motivo terias tu escondido em tua bota, um frasco com poção do amor? -Peter exibia o frasco em sua mão.
 Alice ficou pálida, sem reação e com os olhos arregalados.
-Devolva-me isto, imediatamente.
-Não, pois não tens mais a necessidade disso. -disse o rapaz, guardando o frasco no bolso que havia na calça. -Não imaginas o quanto me segurei para não juntar-me a ti naquele lago, todos os dias em que te acompanhei.
 Alice se aproximou de Peter, tentando obter o frasco de volta, mas a revoada de borboletas voltara para seu estômago. Peter segurou o rosto dela com as duas mãos e, no momento em que seus lábios selaram-se, a explosão da energia acumulada fez com que as pernas dela cedessem e, Peter teve que segurá-la firme pela cintura contra seu corpo.
 Ele a levou de volta para o castelo, onde passaram uma linda noite juntos. E ao amanhecer, no lado da cama onde Peter estivera, havia uma rosa vermelha, que exalava o cheiro de Peter.
 Aquela foi a primeira noite de muitas outras. De dia, Alice se "dedicava" ao seu noivo, príncipe Edmund, mas de noite, aguardava o verdadeiro amor. E a cada dia que passava, mais próxima ficava a data do casamento, e cada vez mais crescia o que ela sentia por Peter.
 E então chegou a tão aguardada data para o rei Jhon: o casamento de Alice e Edmund. O rei estava ansioso e entrou no quarto da filha ao amanhecer para entregar o vestido de noiva pessoalmente, e se deparou com Peter e Alice se preparando para partir.
 O casal aproveitou a falta de reação do rei para fugirem pela passagem secreta atrás do grande espelho do quarto. Os cavalos já estavam aguardando, e eles conseguiram chegar à cabana de Peter sem muitas dificuldades.
 Ao entrarem na cabana, deram de cara com Mel, a tutora de Alice.
-Mel, por favor, não entregue-nos, e não me faça voltar! -suplicou a princesa.
-Jamais intentarei contra a felicidade de minha querida pupila e meu sobrinho.
-Sobrinho? -estranhou Alice.
-Sim. Como você acha que ele foi capaz de detectar a sua poção? Além de sobrinho, também é meu aprendiz. Mas discutiremos isso depois, a caminho da casa da minha outra irmã.
-Mel, eu não gostaria de deixar o meu pai. Ele é minha única família, e só temos um ao outro. Não tem um meio de ficarmos sem sermos descobertos?
-Considerando que estamos sem muito tempo, tem uma saída, mas não sei se vocês aceitarão.
-E qual é? -perguntou o casal, temendo a resposta, quando viram Mel tirar dois frascos com um líquido perolado, de dentro da bolsa de couro que estava pendurada em seu ombro esquerdo.
 Quando o rei Jhon e seus guardas invadiram a cabana, viram um monte de coisas quebradas e penas espalhadas pelo chão.
 Peter e Alice se transformaram em cisnes, e foram morar no lago no meio da floresta, onde o rei costumava passear nas ensolaradas tardes de primavera.
 Eu gostaria de poder dizer que foram felizes para sempre, mas esta não é uma história infantil, e todos sabemos que o "para sempre" leva só o tempo de uma vida. Dizem que quando ficou sozinho no lago, o cisne Peter, entoava tristes canções para lamentar a sua amada, imortalizada em seu coração para sempre, enquanto ela não o chamasse para se juntar à ela.
 Na floresta dos amantes, até os dias de hoje pode-se escutar as canções murmuradas pelos ventos nas árvores, que conta a história de um amor que nunca será esquecido.
Magamesk

12 novembro 2011

O Cisne - parte I de II

 Esses tempos atrás, tive a ideia de postar alguns contos, tomando por base as músicas da minha playlist. A primeira que eu consegui passar para o papel foi essa história aqui, baseada na música The Swan Song do Within Temptation. Sugiro que se quiserem alguma música de fundo para acompanhar, ela é o tema, here is the link: http://www.youtube.com/watch?v=u76STEGlCXk




 Em uma noite de tempestade, num reino qualquer da época feudal, a rainha Lia morre ao dar a luz à pequena Alice, e a parteira se oferece para ser a tutora da menina e evitar aborrecimentos futuros ao rei. O rei Jhon, desnorteado pela recente viuvez, aceita sem muitos questionamentos ou restrições.
 Quando a princesa completou dezessete anos, o rei deu uma festa para apresentá-la aos príncipes dos reinos próximos, com os quais, Jhon intentava uma aliança.
 Os príncipes ficaram maravilhados com Alice, trajada em seu melhor vestido. Mas ela não percebeu os olhares dos rapazes, pois o seu foco tinha sido atraído para Peter, um jovem que estava a servir os convidados. Ela se encantou por ele assim que o viu, quando ele a olhou nos olhos por dois breves segundos, enquanto oferecia uma taça de vinho ao rei; que nem se deu conta, por estar preocupado demais com seus convidados.
 Para o rei Jhon , e mais um outro rei, a festa tinha sido produtiva, pois haviam marcado um novo encontro para definirem os termos do casamento de seus filhos. Já para Alice, a festa se resumiu em ficar seguindo com os olhos todos os movimentos de Peter. Ela já estava acostumada a lidar com rapazes, mas havia algo nele que o tornava diferente.
 A princesa sabia que, depois de todos se recolherem em seus aposentos, os serviçais ficavam até mais tarde arrumando as coisas. Como Mel, sua tutora, a ensinara a ser discreta, principalmente em assuntos como esse, Alice se trocou, colocando roupas mais leves e discretas, e logo em seguida, saiu de seu quarto em segredo, dirigindo-se à cozinha.
 Ao chegar lá, como todos tivessem conhecimento dos hábitos noturnos da princesa, retiraram-se em silêncio à um sinal familiar dela. Peter também estava para sair, quando ela o deteve.
-Você fica; teremos uma conversa séria.
-Sim, alteza. -disse ele parando onde estava e encarando-a.
 Assim que ficaram a sós, Alice se aproximou dele, praticamente comendo-o com os olhos.
-Qual seu nome?
-Peter, alteza.- respondeu ele, ainda sem abaixar a cabeça.
-É a primeira vez que trabalha no palácio, Peter?- ela diz o nome dele com gosto.
-Sim, alteza.
-Presumo que conheça a área da floresta. Correto?
-Sim, alteza.
-Falarei agora mesmo com o chefe da cozinha, não quero mais você trabalhando neste lugar.- Peter abaixou a cabeça. -A partir de amanhã, você me acompanhará nas minhas incursões até a lagoa que fica escondida pelo velho carvalho. Entendido?
-Sim, alteza!- respondeu Peter, levantando a cabeça com um sorriso nos lábios. O sorriso mais belo que ela já havia visto.
-Te vejo amanhã, na porta do palácio assim que o sol nascer.- disse ela retirando-se -E Peter, costumo ser pontual.
-Sim, alteza.- disse ele com um aceno de cabeça, consentindo.
 No dia seguinte, assim que saiu do palácio, ela se deparou com Peter, seu mais novo serviçal, à sua espera, juntamente com seu cavalo preferido, pronto para montar.
 Alice falou durante todo o trajeto, e Peter foi-lhe um ótimo ouvinte. Contou-lhe sobre as histórias que Mel narrava para ela poder dormir, sobre seus contos de quando aprendia a montar um cavalo como uma dama, e mais algumas coisas fúteis de princesa mimada. Ao chegarem, ela se despiu com espantosa destreza, ficando apenas em trajes íntimos.
 Para grande assombro da donzela, Peter continuou agindo como se aquilo fosse a coisa mais sem importância do mundo. Assim que a princesa desmontou, ele tratou logo de prender o animal em uma árvore e verificar atentamente se havia alguém por perto. Feita a sua ronda, estendeu um lençol na grama, pegou as vestes que ela pendurara na árvore e depositou-as gentilmente sobre metade do lençol.
 O espanto da princesa foi tamanho, que nem entrara na lagoa, apenas observava atônita as reações de Peter.
-Vossa alteza não estava para se banhar?- lembrou ele.
-É claro. Só estava por observar o teu serviço.- recuperou-se ela rapidamente -Venha. Despe-te e junte-se a mim.
-Agradeço, vossa alteza. Mas é melhor eu ficar de guarda, para que pessoa alguma possa se aproveitar deste teu momento de lazer. -sorriu ele.
 Era incrível como ela se sentia incapaz de contrariá-lo, mesmo sendo ela a sua senhora. Alice contentou-se em mergulhar sozinha, até que sua perna esquerda foi acometida por uma cãibra terrível, e começou a afundar. Não chegou a afundar nem dois metros, e sentiu um braço agarrando sua cintura e levando-a de volta à superfície. Peter carregou-a no colo até o lençol estendido, onde ela sentou-se para recuperar melhor o fôlego. Não por quase ter se afogado, mas pela sensação que sentiu ao ser tocada por Peter.
-Princesa! Vossa alteza está bem? -indagou ele preocupado, ajoelhando-se na frente dela e colocando as mãos nos ombros dela. Alice se arrepiou inteira novamente, como nunca havia arrepiado antes.
-Eu... Eu estou... Bem... -esforçou-se ela.
-É melhor voltarmos, deixemos esse passeio para amanhã. Cubra-se. -e ele colocou a sua capa, que estava seca, sobre a princesa, para esconder os trajes em que ela se encontrava.
 Pegou-a no colo novamente, causando tremores nela, colocou-a em cima do cavalo, pôs as vestes da princesa no meio do lençol, fez uma trouxa, prendeu-a à cela do animal, tomou as rédeas, e voltaram para o palácio.
 Peter deixou-a na porta, despediu-se e foi-se embora. A princesa passou a tarde e a noite toda sonhando com seu "salvador", que não aparentava, mas tinha a força de um caçador. Descobriu-se perdida de paixão durante as últimas semanas de verão que se seguiram. Alice saía todas as manhãs, acompanhada de seu mais leal súdito.
 Logo chegou o inverno, e ela havia prometido ao pai que assim que chegasse o frio, se dedicaria ao seu noivo, o príncipe Edmund. Mas ela ainda não havia devolvido a capa de Peter, e a usaria como pretexto para ir vê-lo à noite.
 Alice preparou-se para sair; disfarçou-se, colocando roupas simples, assim como as pessoas que moravam na vila. Soltou seus longos cabelos castanhos escuro e, colocou escondido na bota um frasquinho com um líquido púrpura dentro, caso tivesse a chance de usá-lo.

 To be continued...

Magamesk

10 novembro 2011

Canções do mundo acabado


I

Meus olhos andam sem sono
somente por te avistarem
de uma tão grande distância.

De altos mastros ainda rondo
tua lembrança nos ares
O resto é sem importância.

Certamente, não há nada
de ti, sobre este horizonte
desde que ficaste ausente.
Mas é isso o que me mata:
sentir que estás não sei onde,
mas sempre na minha mente.

II

Não acredites em tudo
que disser a minha boca
sempre que te fale ou cante.

Quando não parece, é muito,
quando é muito, é muito pouco,
e depois nunca é bastante...

Fôste o mundo sem ternura
em cujas praias morreram
meus desejos de ser tua.

A água salgada me escuta
e mistura nas areias
meu pranto e o pranto da lua.

Penso no que me dizias,
e como falavas, e como te rias...
Tua voz mora no mar.

A mim não fizeste rir
e nunca viste chorar.

(Porque o tempo sempre foi
longo para me esqueceres
e curto para te amar).
Cecília Meireles