Era dezembro, e descemos do ônibus fretado da empresa, como fazíamos de segunda a sexta, minha irmã e eu ao voltarmos do trabalho. E assim que pisamos na calçada, um cachorro magro, vagando com seu ar faminto e sofrido passa por nós e meu peito dá um nó. Viro para a minha irmã, apontando o pobre animal e falo "Morro de dó de ver isso. Se ao menos eu tivesse como ajudar...", ela concordou comigo, mas sabíamos que não teria como levá-la para casa, por ser de porte médio-grande e não termos nada em mãos para levá-la, por já termos três gatos, e pelo último e derradeiro fato, de que meu pai provavelmente surtaria.
Ventava muito naquela tarde nublada e abafada, anunciando a chuva que cairia mais tarde. Estávamos na cozinha quando escutamos minha mãe nos chamar da sala da televisão enquanto olhava a chuva torrencial que caía. Ela estava olhando pela janela para o outro lado da rua e nos apontou um cachorro que tentava se abrigar da chuva na frente da casa de nosso vizinho de frente. Ela ainda o olhava quando disse "Que dozinha...", percebi que era aquele mesmo cachorro que passara por nós quando descemos do ônibus, contei à minha mãe o ocorrido, e ela, virando-se para mim, perguntou "Você teria coragem de trazer ele pra dentro da nossa garagem?" eu a respondi dizendo "Mantenha o portão aberto". Saí com um guarda chuva na mão e atravessei a rua, enquanto o pobre animal me olhava e tremia de frio e provavelmente de medo, este último estampado em seus olhinhos suplicantes. Eu chamei para que me seguisse, mas apenas alternava seu olhar para mim e para o chão e a chuva. Minha irmã se juntou à mim, atravessando a rua sem guarda-chuva, entreguei o meu para ela, me aproximei do animalzinho, segurando-o pelas axilas e delicadamente puxando, forçando-o a atravessar a rua conosco, já que minha irmã nos colocou sob o grande guarda-chuva junto com ela. Observei que era uma fêmea, e a coitada não ofereceu resistência alguma enquanto eu a levava para o abrigo. Ao passarmos pelo portão, minha irmã o fechou e foi juntar-se a mim e minha mãe, que preparara uma caixa de papelão e panos secos para a chegada da nossa resgatada.
Depois de seca, oferecemos água, que ela não tomou de imediato, mas beliscou o que minha mãe oferecera para ela comer (que no momento eu não me lembro o que era). Ela era de porte médio-grande, com o pelo amarelo desbotado, seca de tão magra, orelhudinha, patas finas e compridas, trazia uma coleira vermelha em seu pescoço, mas sem identificação alguma. Faltavam-lhe a maioria dos pelos das costas, que expunham uma pele seca, escura, sebenta e escamosa que se alastrava do meio das costas até à algumas partes do rabo. Andava meio desconjuntada, tortinha e tinha um dos olhares mais sofridos que já vi. Resolvemos deixá-la ali, na caixa entre o carro e a porta de entrada de casa, até que a chuva passasse.
Fiquei um bom tempo com ela, acalmando-a. conversando com ela, e torcendo para que se secasse logo, pois ela tremia de frio. Logo meu namorado chegou e quando viu a cachorra, perguntou como a tínhamos conseguido, e lhe contei a história. Ele ficou ali na frente comigo, até que minha irmã veio me substituir, para que eu entrasse e tomasse um banho. Um tempo depois, meu pai chegou em casa, e perguntou à minha mãe o que aquela cachorra fazia na nossa garagem e minha mãe lhe explicou que apenas a estava abrigando da chuva e que a soltaria quando a chuva parasse. O problema é que não sabíamos quando a chuva pararia. Mas ela parou naquela mesma noite, e vendo que estávamos relutantes em devolver a cachorra pra rua, meu pai disse que tínhamos uma semana para nos livrarmos dela, porque ele não queria mais um animal em casa. Meu pai e meu namorado não entendiam porque estávamos relutantes em devolvê-la às ruas.
No manhã do dia seguinte, comprei uma guia para ela e a levei à veterinária da agropecuária perto de casa, que atende de graça se levamos os bichinhos até lá. A cachorra não ofereceu resistência quando a levantei para colocá-la em cima da mesa e nem quando a veterinária a examinou. Feito as análises superficiais como ouvir o coração, analisar as condições da arcada dentária (que estavam péssimas, pois os poucos dentes da frente que possuía estavam gastos e amarelos), ela disse que a cadela era velha, com idade entre oito e dez anos, estava subnutrida, e a dermatite que lhe fazia perder os pelos das costas era crônica (nunca se curaria), mas tinha um meio de amenizá-la. Receitou vitamina, um shampoo especial, sabonete anti-pulgas e um vermífugo, e me disse que para saber mais detalhes (estado do sangue e se era castrada ou não), seria necessário exames mais detalhados. Voltei pra casa com ela, e depois voltei à agropecuária para comprar, além do que a veterinária receitara, um shampoo para pelos claros e ração.
Dei banho nela com água morna, que mais uma vez se mostrou dócil e não me deu um pingo sequer de trabalho. A coloquei para terminar de secar ao sol e fui fazer o almoço e me arrumar para ir trabalhar. Quando voltamos do trabalho, tiramos fotos dela para colocarmos no cadastro que fizemos para ela, na fila de espera para entrar no canil da ONG Vira-Lata Vira-Vida. E decidimos, que se não conseguíssemos ninguém para adotá-la, e se não chamassem da fila de espera, ficaríamos com ela, pois estava velhinha. Até pensamos num nome: Mindi.
O tempo foi passando, e não conseguimos dono para a pobrezinha, mas nesse tempo, ela já havia ganhado o coração de todo mundo em casa. Eu comprei, além da guia, um bebedouro, com comedouro acoplado, uma casinha, e roupinhas, pois ela era muito friorenta. O passeio era revezado entre todos nós, mas quem mais saía com ela eram os meus pais. Nunca mais me esqueço do dia em que fui falar com a minha mãe no ateliê dela (a Mindi dormia no ateliê, que dava para o quintal), e ela ficou me olhando, pedindo alguma coisa, que eu logo pensei que era o biscoito que eu estava comendo, mas ela o pegou delicadamente com a boca e deixou cair no chão, voltando a olhar pra mim; foi quando eu segurei a cabecinha dela entre as mãos e perguntei pra ela o que é que ela queria, esfregando as duas mãos nos pelos macios do pescoço, e então, ela disparou, foi até o portão que divide o quintal e voltou, naquela corrida desajeitadinha dela, toda feliz por eu ter entendido o que ela queria. Só então ela comeu o biscoito. Rimos bastante nesse dia, e em outro, que ela, para recusar o petisco que eu oferecia, andava de cabeça baixa, fingindo que não via que o que eu estava segurando na mão.
Também era lindo de ver, como ela ficava parecendo uma cabritinha quando a gente aparecia com a comidinha dela. O modo como ela pousava a cabeça no nosso joelho ou perna (era mais frequente com a minha mãe), e olhava com aquela carinha de piedade, e nós fazíamos carinho nela e ela deixava a cabeça tombar na nossa mão e fechava os olhinhos, apreciando cada segundo do carinho, "como se nunca tivesse recebido carinho a vida toda", era como minha mãe costumava descrever. Mindi também adorava passear, era só mostrar a guia e falar "venha!", que ela ia até a gente, e ficava quietinha para que colocássemos a guia nela, era um doce de se ver. E quando a gente saía, era uma calmaria só, pois enquanto os cachorros se acabavam de latir por detrás do portão, ela nem ligava, e fazia de conta que nem era com ela.
Foi fácil ensiná-la a andar na guia, mas ela se manteve teimosa até o seu último passeio, principalmente em relação aos sacos de lixo, que pareciam tão apetitosos e chamativos, mesmo estando ela de barriga cheia.
Demorou para que ela acostumasse a ficar em casa, contando todas as fugas, foram seis, três em que consegui recuperá-la e outras três em que ela voltou sozinha, com a carinha de pau mais pedinte do mundo. Mas uma das vezes em que consegui recuperá-la, me marcou muito, pois foi no susto. Eu estava dormindo ainda, quando escuto o meu pai, que estava saindo para o trabalho, falar da porta da sala "Márcia, a Mindi fugiu, acabou de sair pelo portão!". Eu me levantei correndo, enfiei a calça jeans voando e peguei a primeira camisa que minha mão encontrou, saí descalça, peguei a guia dela no ateliê e saí correndo de casa, na chuva fria e fina que caía, sem saber pra onde aquela criaturinha tinha ido. Meu pai estava atrasado, então, não estava mais por perto para me dizer para qual direção seguir, então, segui meus instintos (que muito dificilmente falham, posso dizer sem medo), e segui na direção contrária à mão única da rua. Encontrei-a a dois quarteirões de casa, porque por sorte tinha parado para fuçar num saco de lixo, e antes de eu chegar até ela, escorreguei na beirada da guia batendo os três últimos dedos do pé esquerdo no concreto. Doeu. Muito. Mas ignorei e fui até o fujona, que já me olhava com a carinha de piedade mais culpada do mundo. Dei bronca pela fuga, passei a guia e tive de puxá-la de volta praticamente, pois a teimosa não queria mais voltar. A adrenalina de ir atrás dela foi tanta, que só quando estávamos em casa, que fui olhar como o meu cabelo estava desgrenhado (pior do que quando levantei, por causa da chuva), a camisa amassada, e os dedos sangrando, mas nem dei importância, ela estava a salvo em casa e eu também estava de volta, poupando os vizinhos de ver a minha aparência medonha.
Alguns meses depois que Mindi estava em casa, apareceram os primeiros sintomas. Tentamos localizar o veterinário que havia cuidado de um dos nossos gatos, mas ele havia se mudado e no lugar dele, estava uma outra, que decidimos chamar. Ela colheu material para exames, e nos ligou, passando os resultados: Mindi estava velhinha, e por isso, seus rins começaram a falhar, e só havia o tratamento, mas não cura. Infelizmente, isso normalmente ocorre em cachorros idosos. Começou o tratamento, tomando soro, e com o soro, ranitidina, para manter a comida no estômago. Ela se recuperou bem, e voltamos com a rotina de todo dia por mais alguns meses.
Mais ou menos por volta de agosto, pouco tempo depois de acolhermos uma outra cadelinha, a Preta, começamos a sentir um cheiro muito forte, mais forte do que o cheiro que impregnava o quintal e o ateliê por causa da dermatite da Mindi. Ela começou a vomitar novamente, e ela tomava ranitidina na hora do almoço. Tivemos que trocar a sua alimentação, e como a ração especial que era recomendada era muito cara (R$ 73,80 -aproximadamente- por 2kg), que agora, durava cerca de duas semanas no máximo, com as duas cachorras, e infelizmente era um dinheiro que não tínhamos, por isso, eu ou minha mãe cozinhávamos para elas, seguindo recomendação da própria veterinária. Sem óleo, uma leve pitada de sal, pra dar um mínimo de gosto, arroz com beterraba, cenoura, abobrinha, vagem, e algum tipo de carne (frango, carne moída -que a Mindi adorava- e depois tivemos que adicionar o fígado, porque Mindi também tinha anemia).
A Preta não gostava muito dos legumes, mas aprendeu a comer tudinho, com a Mindi, que com o passar do tempo, passou a não comer mais direito, e ranitidina passou a ser dosada a duas vezes por dia, e depois dos novos exames que a veterinária fez, descobrimos o porquê do cheiro forte: quanto mais forte o cheiro, pior era o estado dos rins da pobrezinha. Durante uma semana, todo dia de noite a veterinária vinha em casa e aplicava o soro e os remédios. Disse para a minha mãe, que qualquer coisa que acontecesse, podia ser a hora que fosse, era para ligar pra ela que ela vinha, o que indicava a gravidade do caso na nossa idosa-mocinha.
Ela deu uma leve reanimada, voltando a comer, como resultado do estimulante de apetite que a veterinária havia receitado, e da vitamina, que também havia entrado para o potinho de remédios da Mindi. Ela não comia mais tão bem, mas ainda estava comendo, e só vomitava de vez em quando, fato que a levou a emagrecer mais ainda. Ela se animava quando a chamávamos para passear, a guia ficou enorme para ela, seus passinhos lentos, haviam ficado mais lentos ainda, e ela começou a parar depois de um certo tempo, como que para descansar, e logo depois, a veterinária disse que era porque ela estava sentindo dor. Tivemos que encurtar o percurso.
Seu quadro estava ruim, mas estava estável, e depois da última visita da veterinária, ela havia ficado amuadinha. A veterinária também nos disse, que, examinando a Mindi, dava para contar uma parte da história de vida dela, pois o seu focinho já havia sido quebrado, assim como as suas patinhas, e ela provavelmente devia apanhar bastante, motivo pelo qual ela andava desajeitada; e quando batiam, deviam amarrá-la, pois havia uma cicatriz enorme em seu pescoço, com 25cm de comprimento por 3cm de largura, sem pelos. Haviam também várias outras cicatrizes evidentes espalhadas pelo seu corpinho.
Já não apresentava resistência para tomar os medicamentos, e começou a tomar buscopan para amenizar as dores que sentia, porque com frequência nós a víamos tremendo, sendo que não estava passando frio.
E então, quando não achávamos que podia piorar, ela parou de querer passear, parou de comer, e as duas refeições que fez, soltou no jardim, não tinha mais forças nem para fazer suas necessidades (esqueci de mencionar que ela também tinha incontinência urinária, fato que nos levou a separar muitos panos, almofadas e dois colchões pequenos que pudessem ser trocados frequentemente).
Foi bem rápido, seu quadro piorou, ela vomitou suas últimas refeições e já fazia dois dias que não comia, e num domingo de manhã, minha mãe foi levar o café da manhã das cachorras e conversou com a Mindi como sempre fazia e disse à ela, que se quisesse partir, que podia partir em paz, pois jamais esqueceríamos dela. Eram cerca de três da tarde, e o moço que vende balas esporadicamente aqui em casa estava chamando no portão, e quando a minha mãe atendeu, ele disse "professora, a sua cachorra tá deitada aqui no jardim, eu acho que ela morreu...", e minha mãe falou da porta para o meu pai que estava no computador "a Mindi tá no jardim, e eu acho que ela está morrendo!", meu pai disse que nem queria ver e nem se levantou da cadeira. Eu e meu namorado fomos com a minha mãe, verificar como ela estava, e constatamos o que já estávamos esperando há algum tempo, ela se fora.
Ela ainda estava quente e molinha quando minha mãe a pegou e a colocou dentro do saco que eu segurava aberto, parecia que estava dormindo, não fosse a falta de respiração, a boca aberta e os olhos vidrados. Ajeitamos com carinho e a colocamos dentro de uma caixa de papelão, até que conseguíssemos enterrá-la como ela merecia.
É triste ver um animal que sofreu praticamente a vida toda, sofrer até o final dela; o nosso único consolo, foi que fizemos o que estava em nosso alcance para dar um final de vida digno para esse anjinho.
Foram apenas nove meses, o suficiente para o sofrimento dela nos marcar e nos ensinar. Ela não era linda como o labrador de Marley & Eu, não era esperta como muitos cães que vemos dar shows em competições de adestramento, mas ganhou nossos corações de um modo único e maravilhoso. Descanse em paz minha querida.
Ventava muito naquela tarde nublada e abafada, anunciando a chuva que cairia mais tarde. Estávamos na cozinha quando escutamos minha mãe nos chamar da sala da televisão enquanto olhava a chuva torrencial que caía. Ela estava olhando pela janela para o outro lado da rua e nos apontou um cachorro que tentava se abrigar da chuva na frente da casa de nosso vizinho de frente. Ela ainda o olhava quando disse "Que dozinha...", percebi que era aquele mesmo cachorro que passara por nós quando descemos do ônibus, contei à minha mãe o ocorrido, e ela, virando-se para mim, perguntou "Você teria coragem de trazer ele pra dentro da nossa garagem?" eu a respondi dizendo "Mantenha o portão aberto". Saí com um guarda chuva na mão e atravessei a rua, enquanto o pobre animal me olhava e tremia de frio e provavelmente de medo, este último estampado em seus olhinhos suplicantes. Eu chamei para que me seguisse, mas apenas alternava seu olhar para mim e para o chão e a chuva. Minha irmã se juntou à mim, atravessando a rua sem guarda-chuva, entreguei o meu para ela, me aproximei do animalzinho, segurando-o pelas axilas e delicadamente puxando, forçando-o a atravessar a rua conosco, já que minha irmã nos colocou sob o grande guarda-chuva junto com ela. Observei que era uma fêmea, e a coitada não ofereceu resistência alguma enquanto eu a levava para o abrigo. Ao passarmos pelo portão, minha irmã o fechou e foi juntar-se a mim e minha mãe, que preparara uma caixa de papelão e panos secos para a chegada da nossa resgatada.
Depois de seca, oferecemos água, que ela não tomou de imediato, mas beliscou o que minha mãe oferecera para ela comer (que no momento eu não me lembro o que era). Ela era de porte médio-grande, com o pelo amarelo desbotado, seca de tão magra, orelhudinha, patas finas e compridas, trazia uma coleira vermelha em seu pescoço, mas sem identificação alguma. Faltavam-lhe a maioria dos pelos das costas, que expunham uma pele seca, escura, sebenta e escamosa que se alastrava do meio das costas até à algumas partes do rabo. Andava meio desconjuntada, tortinha e tinha um dos olhares mais sofridos que já vi. Resolvemos deixá-la ali, na caixa entre o carro e a porta de entrada de casa, até que a chuva passasse.
Fiquei um bom tempo com ela, acalmando-a. conversando com ela, e torcendo para que se secasse logo, pois ela tremia de frio. Logo meu namorado chegou e quando viu a cachorra, perguntou como a tínhamos conseguido, e lhe contei a história. Ele ficou ali na frente comigo, até que minha irmã veio me substituir, para que eu entrasse e tomasse um banho. Um tempo depois, meu pai chegou em casa, e perguntou à minha mãe o que aquela cachorra fazia na nossa garagem e minha mãe lhe explicou que apenas a estava abrigando da chuva e que a soltaria quando a chuva parasse. O problema é que não sabíamos quando a chuva pararia. Mas ela parou naquela mesma noite, e vendo que estávamos relutantes em devolver a cachorra pra rua, meu pai disse que tínhamos uma semana para nos livrarmos dela, porque ele não queria mais um animal em casa. Meu pai e meu namorado não entendiam porque estávamos relutantes em devolvê-la às ruas.
No manhã do dia seguinte, comprei uma guia para ela e a levei à veterinária da agropecuária perto de casa, que atende de graça se levamos os bichinhos até lá. A cachorra não ofereceu resistência quando a levantei para colocá-la em cima da mesa e nem quando a veterinária a examinou. Feito as análises superficiais como ouvir o coração, analisar as condições da arcada dentária (que estavam péssimas, pois os poucos dentes da frente que possuía estavam gastos e amarelos), ela disse que a cadela era velha, com idade entre oito e dez anos, estava subnutrida, e a dermatite que lhe fazia perder os pelos das costas era crônica (nunca se curaria), mas tinha um meio de amenizá-la. Receitou vitamina, um shampoo especial, sabonete anti-pulgas e um vermífugo, e me disse que para saber mais detalhes (estado do sangue e se era castrada ou não), seria necessário exames mais detalhados. Voltei pra casa com ela, e depois voltei à agropecuária para comprar, além do que a veterinária receitara, um shampoo para pelos claros e ração.
Dei banho nela com água morna, que mais uma vez se mostrou dócil e não me deu um pingo sequer de trabalho. A coloquei para terminar de secar ao sol e fui fazer o almoço e me arrumar para ir trabalhar. Quando voltamos do trabalho, tiramos fotos dela para colocarmos no cadastro que fizemos para ela, na fila de espera para entrar no canil da ONG Vira-Lata Vira-Vida. E decidimos, que se não conseguíssemos ninguém para adotá-la, e se não chamassem da fila de espera, ficaríamos com ela, pois estava velhinha. Até pensamos num nome: Mindi.
O tempo foi passando, e não conseguimos dono para a pobrezinha, mas nesse tempo, ela já havia ganhado o coração de todo mundo em casa. Eu comprei, além da guia, um bebedouro, com comedouro acoplado, uma casinha, e roupinhas, pois ela era muito friorenta. O passeio era revezado entre todos nós, mas quem mais saía com ela eram os meus pais. Nunca mais me esqueço do dia em que fui falar com a minha mãe no ateliê dela (a Mindi dormia no ateliê, que dava para o quintal), e ela ficou me olhando, pedindo alguma coisa, que eu logo pensei que era o biscoito que eu estava comendo, mas ela o pegou delicadamente com a boca e deixou cair no chão, voltando a olhar pra mim; foi quando eu segurei a cabecinha dela entre as mãos e perguntei pra ela o que é que ela queria, esfregando as duas mãos nos pelos macios do pescoço, e então, ela disparou, foi até o portão que divide o quintal e voltou, naquela corrida desajeitadinha dela, toda feliz por eu ter entendido o que ela queria. Só então ela comeu o biscoito. Rimos bastante nesse dia, e em outro, que ela, para recusar o petisco que eu oferecia, andava de cabeça baixa, fingindo que não via que o que eu estava segurando na mão.
Também era lindo de ver, como ela ficava parecendo uma cabritinha quando a gente aparecia com a comidinha dela. O modo como ela pousava a cabeça no nosso joelho ou perna (era mais frequente com a minha mãe), e olhava com aquela carinha de piedade, e nós fazíamos carinho nela e ela deixava a cabeça tombar na nossa mão e fechava os olhinhos, apreciando cada segundo do carinho, "como se nunca tivesse recebido carinho a vida toda", era como minha mãe costumava descrever. Mindi também adorava passear, era só mostrar a guia e falar "venha!", que ela ia até a gente, e ficava quietinha para que colocássemos a guia nela, era um doce de se ver. E quando a gente saía, era uma calmaria só, pois enquanto os cachorros se acabavam de latir por detrás do portão, ela nem ligava, e fazia de conta que nem era com ela.
Foi fácil ensiná-la a andar na guia, mas ela se manteve teimosa até o seu último passeio, principalmente em relação aos sacos de lixo, que pareciam tão apetitosos e chamativos, mesmo estando ela de barriga cheia.
Demorou para que ela acostumasse a ficar em casa, contando todas as fugas, foram seis, três em que consegui recuperá-la e outras três em que ela voltou sozinha, com a carinha de pau mais pedinte do mundo. Mas uma das vezes em que consegui recuperá-la, me marcou muito, pois foi no susto. Eu estava dormindo ainda, quando escuto o meu pai, que estava saindo para o trabalho, falar da porta da sala "Márcia, a Mindi fugiu, acabou de sair pelo portão!". Eu me levantei correndo, enfiei a calça jeans voando e peguei a primeira camisa que minha mão encontrou, saí descalça, peguei a guia dela no ateliê e saí correndo de casa, na chuva fria e fina que caía, sem saber pra onde aquela criaturinha tinha ido. Meu pai estava atrasado, então, não estava mais por perto para me dizer para qual direção seguir, então, segui meus instintos (que muito dificilmente falham, posso dizer sem medo), e segui na direção contrária à mão única da rua. Encontrei-a a dois quarteirões de casa, porque por sorte tinha parado para fuçar num saco de lixo, e antes de eu chegar até ela, escorreguei na beirada da guia batendo os três últimos dedos do pé esquerdo no concreto. Doeu. Muito. Mas ignorei e fui até o fujona, que já me olhava com a carinha de piedade mais culpada do mundo. Dei bronca pela fuga, passei a guia e tive de puxá-la de volta praticamente, pois a teimosa não queria mais voltar. A adrenalina de ir atrás dela foi tanta, que só quando estávamos em casa, que fui olhar como o meu cabelo estava desgrenhado (pior do que quando levantei, por causa da chuva), a camisa amassada, e os dedos sangrando, mas nem dei importância, ela estava a salvo em casa e eu também estava de volta, poupando os vizinhos de ver a minha aparência medonha.
Alguns meses depois que Mindi estava em casa, apareceram os primeiros sintomas. Tentamos localizar o veterinário que havia cuidado de um dos nossos gatos, mas ele havia se mudado e no lugar dele, estava uma outra, que decidimos chamar. Ela colheu material para exames, e nos ligou, passando os resultados: Mindi estava velhinha, e por isso, seus rins começaram a falhar, e só havia o tratamento, mas não cura. Infelizmente, isso normalmente ocorre em cachorros idosos. Começou o tratamento, tomando soro, e com o soro, ranitidina, para manter a comida no estômago. Ela se recuperou bem, e voltamos com a rotina de todo dia por mais alguns meses.
Mais ou menos por volta de agosto, pouco tempo depois de acolhermos uma outra cadelinha, a Preta, começamos a sentir um cheiro muito forte, mais forte do que o cheiro que impregnava o quintal e o ateliê por causa da dermatite da Mindi. Ela começou a vomitar novamente, e ela tomava ranitidina na hora do almoço. Tivemos que trocar a sua alimentação, e como a ração especial que era recomendada era muito cara (R$ 73,80 -aproximadamente- por 2kg), que agora, durava cerca de duas semanas no máximo, com as duas cachorras, e infelizmente era um dinheiro que não tínhamos, por isso, eu ou minha mãe cozinhávamos para elas, seguindo recomendação da própria veterinária. Sem óleo, uma leve pitada de sal, pra dar um mínimo de gosto, arroz com beterraba, cenoura, abobrinha, vagem, e algum tipo de carne (frango, carne moída -que a Mindi adorava- e depois tivemos que adicionar o fígado, porque Mindi também tinha anemia).
A Preta não gostava muito dos legumes, mas aprendeu a comer tudinho, com a Mindi, que com o passar do tempo, passou a não comer mais direito, e ranitidina passou a ser dosada a duas vezes por dia, e depois dos novos exames que a veterinária fez, descobrimos o porquê do cheiro forte: quanto mais forte o cheiro, pior era o estado dos rins da pobrezinha. Durante uma semana, todo dia de noite a veterinária vinha em casa e aplicava o soro e os remédios. Disse para a minha mãe, que qualquer coisa que acontecesse, podia ser a hora que fosse, era para ligar pra ela que ela vinha, o que indicava a gravidade do caso na nossa idosa-mocinha.
Ela deu uma leve reanimada, voltando a comer, como resultado do estimulante de apetite que a veterinária havia receitado, e da vitamina, que também havia entrado para o potinho de remédios da Mindi. Ela não comia mais tão bem, mas ainda estava comendo, e só vomitava de vez em quando, fato que a levou a emagrecer mais ainda. Ela se animava quando a chamávamos para passear, a guia ficou enorme para ela, seus passinhos lentos, haviam ficado mais lentos ainda, e ela começou a parar depois de um certo tempo, como que para descansar, e logo depois, a veterinária disse que era porque ela estava sentindo dor. Tivemos que encurtar o percurso.
Seu quadro estava ruim, mas estava estável, e depois da última visita da veterinária, ela havia ficado amuadinha. A veterinária também nos disse, que, examinando a Mindi, dava para contar uma parte da história de vida dela, pois o seu focinho já havia sido quebrado, assim como as suas patinhas, e ela provavelmente devia apanhar bastante, motivo pelo qual ela andava desajeitada; e quando batiam, deviam amarrá-la, pois havia uma cicatriz enorme em seu pescoço, com 25cm de comprimento por 3cm de largura, sem pelos. Haviam também várias outras cicatrizes evidentes espalhadas pelo seu corpinho.
Já não apresentava resistência para tomar os medicamentos, e começou a tomar buscopan para amenizar as dores que sentia, porque com frequência nós a víamos tremendo, sendo que não estava passando frio.
E então, quando não achávamos que podia piorar, ela parou de querer passear, parou de comer, e as duas refeições que fez, soltou no jardim, não tinha mais forças nem para fazer suas necessidades (esqueci de mencionar que ela também tinha incontinência urinária, fato que nos levou a separar muitos panos, almofadas e dois colchões pequenos que pudessem ser trocados frequentemente).
Foi bem rápido, seu quadro piorou, ela vomitou suas últimas refeições e já fazia dois dias que não comia, e num domingo de manhã, minha mãe foi levar o café da manhã das cachorras e conversou com a Mindi como sempre fazia e disse à ela, que se quisesse partir, que podia partir em paz, pois jamais esqueceríamos dela. Eram cerca de três da tarde, e o moço que vende balas esporadicamente aqui em casa estava chamando no portão, e quando a minha mãe atendeu, ele disse "professora, a sua cachorra tá deitada aqui no jardim, eu acho que ela morreu...", e minha mãe falou da porta para o meu pai que estava no computador "a Mindi tá no jardim, e eu acho que ela está morrendo!", meu pai disse que nem queria ver e nem se levantou da cadeira. Eu e meu namorado fomos com a minha mãe, verificar como ela estava, e constatamos o que já estávamos esperando há algum tempo, ela se fora.
Ela ainda estava quente e molinha quando minha mãe a pegou e a colocou dentro do saco que eu segurava aberto, parecia que estava dormindo, não fosse a falta de respiração, a boca aberta e os olhos vidrados. Ajeitamos com carinho e a colocamos dentro de uma caixa de papelão, até que conseguíssemos enterrá-la como ela merecia.
É triste ver um animal que sofreu praticamente a vida toda, sofrer até o final dela; o nosso único consolo, foi que fizemos o que estava em nosso alcance para dar um final de vida digno para esse anjinho.
Foram apenas nove meses, o suficiente para o sofrimento dela nos marcar e nos ensinar. Ela não era linda como o labrador de Marley & Eu, não era esperta como muitos cães que vemos dar shows em competições de adestramento, mas ganhou nossos corações de um modo único e maravilhoso. Descanse em paz minha querida.
Magamesk
Mindi Dez/2012 - 22/Set/2013



