17 novembro 2011

O Cisne - parte II de II


 Ao chegar na vila, uma festa estava em andamento. A princesa ficou de longe observando o movimento, procurando por Peter.
-Procurando alguém em especial alteza? -disse Peter, surgindo ao lado dela.
-Se eu disser que és tu, se sentirá especial? -respondeu ela, conseguindo disfarçar em um sorriso a mistura de susto e alegria.
-Depende, vossa alteza.
-Peter, não estás a serviço, e não há chato algum do castelo vigiando. Além do mais estragas o meu disfarce. E do que depende?
-Perdões, "Alice". E depende de algo, como por exemplo: veio devolver a minha capa, ou pode ter usado a capa como pretexto para sua fuga da monotonia do castelo quando estás sem a minha presença e, decidistes vir atrás de mim. -explicou ele, chegando mais perto e estendendo o braço para tocá-la.
 Por um curto e eterno período de tempo, Alice sentiu uma revoada de borboletas em seu estômago, pois teve a nítida sensação de que Peter a beijaria. Mas ele apenas desatou as amarras que prendiam a capa dele aos ombros dela. Já desamarrada, a capa escorre dos ombros de Alice e cai no chão. Peter rapidamente se abaixa e a pega de volta, voltando a encarar a princesa.
-Diga-me algo, Alice.
-Sim. -disse ela automaticamente, pois estava entretida olhando os olhos verdes e profundos de Peter.
-O que levaria alguém a usar de subterfúgios como uma poção do amor, para conquistar a outra?
-Desejo desesperado e desenfreado, talvez? -respondeu ela ainda entretida com os belos olhos do rapaz.
-Não seria covardia, egoísmo, irresponsável e incoerente dar poção do amor à uma pessoa clara e irrevogavelmente apaixonada?
-Sim. Mas quem seria tolo o suficiente para não perceber um coração apaixonado?
-Você, Alice.
-Como assim?
-Me disseste há alguns instantes que viestes para me ver. Por qual outro motivo terias tu escondido em tua bota, um frasco com poção do amor? -Peter exibia o frasco em sua mão.
 Alice ficou pálida, sem reação e com os olhos arregalados.
-Devolva-me isto, imediatamente.
-Não, pois não tens mais a necessidade disso. -disse o rapaz, guardando o frasco no bolso que havia na calça. -Não imaginas o quanto me segurei para não juntar-me a ti naquele lago, todos os dias em que te acompanhei.
 Alice se aproximou de Peter, tentando obter o frasco de volta, mas a revoada de borboletas voltara para seu estômago. Peter segurou o rosto dela com as duas mãos e, no momento em que seus lábios selaram-se, a explosão da energia acumulada fez com que as pernas dela cedessem e, Peter teve que segurá-la firme pela cintura contra seu corpo.
 Ele a levou de volta para o castelo, onde passaram uma linda noite juntos. E ao amanhecer, no lado da cama onde Peter estivera, havia uma rosa vermelha, que exalava o cheiro de Peter.
 Aquela foi a primeira noite de muitas outras. De dia, Alice se "dedicava" ao seu noivo, príncipe Edmund, mas de noite, aguardava o verdadeiro amor. E a cada dia que passava, mais próxima ficava a data do casamento, e cada vez mais crescia o que ela sentia por Peter.
 E então chegou a tão aguardada data para o rei Jhon: o casamento de Alice e Edmund. O rei estava ansioso e entrou no quarto da filha ao amanhecer para entregar o vestido de noiva pessoalmente, e se deparou com Peter e Alice se preparando para partir.
 O casal aproveitou a falta de reação do rei para fugirem pela passagem secreta atrás do grande espelho do quarto. Os cavalos já estavam aguardando, e eles conseguiram chegar à cabana de Peter sem muitas dificuldades.
 Ao entrarem na cabana, deram de cara com Mel, a tutora de Alice.
-Mel, por favor, não entregue-nos, e não me faça voltar! -suplicou a princesa.
-Jamais intentarei contra a felicidade de minha querida pupila e meu sobrinho.
-Sobrinho? -estranhou Alice.
-Sim. Como você acha que ele foi capaz de detectar a sua poção? Além de sobrinho, também é meu aprendiz. Mas discutiremos isso depois, a caminho da casa da minha outra irmã.
-Mel, eu não gostaria de deixar o meu pai. Ele é minha única família, e só temos um ao outro. Não tem um meio de ficarmos sem sermos descobertos?
-Considerando que estamos sem muito tempo, tem uma saída, mas não sei se vocês aceitarão.
-E qual é? -perguntou o casal, temendo a resposta, quando viram Mel tirar dois frascos com um líquido perolado, de dentro da bolsa de couro que estava pendurada em seu ombro esquerdo.
 Quando o rei Jhon e seus guardas invadiram a cabana, viram um monte de coisas quebradas e penas espalhadas pelo chão.
 Peter e Alice se transformaram em cisnes, e foram morar no lago no meio da floresta, onde o rei costumava passear nas ensolaradas tardes de primavera.
 Eu gostaria de poder dizer que foram felizes para sempre, mas esta não é uma história infantil, e todos sabemos que o "para sempre" leva só o tempo de uma vida. Dizem que quando ficou sozinho no lago, o cisne Peter, entoava tristes canções para lamentar a sua amada, imortalizada em seu coração para sempre, enquanto ela não o chamasse para se juntar à ela.
 Na floresta dos amantes, até os dias de hoje pode-se escutar as canções murmuradas pelos ventos nas árvores, que conta a história de um amor que nunca será esquecido.
Magamesk

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