É tudo tão silencioso, tão parado, mesmo de dia. Todos se foram, e eu fiquei aqui sozinho, apreciando o pôr-do-sol com a minha solidão. Depois do acidente, muita gente fugiu, e os que sobraram se foram aos poucos. Sou o único que ainda transita por aqui. Mas eu creio que por pouco tempo. Ontem mesmo vieram dois homens da companhia de luz e religaram a energia do condomínio. Eu sempre fui muito brincalhão, e tenho a vantagem de que ninguém mais pode me ver, e os dois foram embora correndo quando mexi no interruptor à frente deles.
Eu estou na lista de mortos e feridos do silencioso vazamento de gás há sete meses. Muitos se salvaram porque o vazamento foi de dia e a maioria estava no trabalho. Foi irônico isso acontecer justo no meu dia de folga. Quando acordei, estava aqui, mas já haviam levado o meu corpo. Ainda não me acostumei a não dormir de noite; levei mais ou menos um mês para descobrir como mover as coisas. Consegui afastar vândalos e pessoas com más intenções que vinham aqui. Só deixei a família de mendigos por causa do menininho deles, que devia ter uns quatro anos. Ele era o único que podia me ver e ouvir. Os pais se arrepiaram inteiros quando "me viram" brincando de carrinho com ele. Se mandaram na mesma noite.
A única pessoa que realmente me faz falta é a minha esposa, que por sorte estava no hospital com a tia dela que tinha acabado de passar por uma cirurgia. Éramos casados há cerca de três anos, e estávamos planejando ter um filho. Nosso apartamento está vazio, ela se foi assim que liberaram aos moradores que pegassem seus pertences.
Ela se foi antes que eu pudesse aprender a seguir pessoas. Mas tudo bem, eu estou evoluindo, e se um dia ela voltar, eu grudo nela. O apartamento é nosso, ou pelo menos era até antes do acidente. E eu defendi-o como pude, até os responsáveis cercarem a área novamente.
Foi legal quando vieram pintores para repintar os prédios do lado de fora. Até hoje eu acho que eles não entendem como e nem porque as latas de tinta eram trocadas.
Podem até achar que sou travesso, mas quando não se precisa mais dormir e sem ninguém pra conversar, a diversão passa a ser apenas uma.
Estou sentado na varanda do meu apartamento, e posso ver as luzes da cidade daqui. Estou no escuro que seria total, caso não fosse noite de lua cheia. Eu costumava ter medo do escuro, perdi há alguns meses, mesmo porquê, seria irônico ter medo, quando eu sou o desconhecido que se move na escuridão.
Mais dois meses se passam, e os prédios ganham uma cara nova por dentro e por fora. Colocaram hoje as placas de "aluga-se" e "vende-se". Fiquei muito triste quando colocaram uma dessas placas no meu apartamento. O meu único consolo foi que a placa era de "aluga-se". Então eu ainda tinha uma chance.
Finalmente começaram a chegar os caminhões de mudança, aos poucos, mas pelo menos chegavam. Mais diversão para um esquecido e abandonado como eu.
Essa semana mudou uma família bem agitada. Um viúvo com dois filhos, uma menina de dez anos com ar de rebelde e um menorzinho de cinco, hiperativo. Resolvi acompanhá-los, já que haviam alugado o nosso apartamento.
George estava viúvo há apenas dois anos, mas mesmo assim, dava conta de tudo, com a ajuda da pequena, porém forte, Ângela, que ajudava a tomar conta do irmãozinho Thiago.
Na primeira noite no novo apartamento, acompanhei o dia dos três, que por ser sábado, acabou com uma gostosa pizza de frango. Depois de comerem, George colocou-os na cama e foi cuidar da louça. Eu, que sempre adorei ver crianças dormindo, fui verificá-las no quarto. Ao entrar no quarto de Ângela, tive uma recepçãozinha da parte dela.
-Quem é você, o que quer aqui, e por que está nos seguindo durante o dia todo?
-Você pode me ver?! -eu estava de boca aberta.
-Ah! E te ouvir também. -paralisei.
-Ok. Vou responder às suas perguntas. Eu era um gerente de eventos, meu nome é Jack, tenho vinte e oito anos, sou, quer dizer, era dono do apartamento onde vocês moram e queria ver se vocês estragariam muito o meu ex-imóvel. Mesmo porque, eu não tenho mais coisas a fazer.
-Nossa, você é o mais coerente que eu já encontrei. Tem certeza de que está morto?
-Na verdade eu morri dormindo, por causa de um vazamento de gás há alguns meses atrás. Mas por quê a pergunta?
-Mas você viu o seu corpo, seu enterro, ou alguma coisa que te desse certeza?
-Olha, eu deitei de noite e acordei no meio da tarde do outro dia, já sem o meu corpo. E você entende do assunto por acaso?
-Sou sensitiva e já estou acostumada com seres como você. Normalmente eles me pedem ajuda, você precisa de algo?
-Apenas de companhia, pois me sinto muito só. Você é a segunda pessoa que me vê e ouve, mas é a primeira que consegue formar uma frase. Isso tudo em quase um ano.
-Então eu acho que poderemos nos ajudar. Eu não possuo amigos. É como se eu fosse invisível!
-Sei exatamente como é isso.
Ela riu um riso tão melodioso, daqueles que transbordam nos ouvidos. E assim nasceu a nossa amizade. Acabei me tornando uma espécie de babá para ela e Thiago, que também podia me ver e não teve medo de mim, nem por um segundo.
Durante dois anos eu acompanhei-os, ajudei-os, confortei-os. George também sabia da minha presença porque Thiago e o cachorro de estimação deles, me denunciaram logo na primeira semana. Mas como o caçula estava à vontade, e o cachorro fazia festinha quando eu chegava da escola dos meninos, George não ligou; mesmo porque, já estava acostumado com o dom de seus filhos.
To be continued...
Magamesk

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