30 outubro 2009

Desabafo de uma insandecida


E de repente lá estava eu. Andando sozinha por entre as ruas desertas da madrugada, sem destino certo. Sem destino certo? Mentira. Eu sabia exatamente pra onde estava indo e queria ir. Mas não acreditava que tinha tido coragem (ou burrice) suficiente para fazer o que estava fazendo. Não parecia eu mesma, parecia tudo parte de um sonho do qual eu queria acordar e sabia que não acordaria. E se acordasse, quem garante que seria em minha aconchegante casa? Vestida como um homem. Andando como um homem. Correndo o risco de ser assaltada, descoberta e estuprada, parada por policiais, espancada, raptada, entre outras coisas mais que possam ocorrer com uma pessoa que se aventura a andar sozinha madrugada afora pelas ruas de uma grande cidade. Sem comer a quase doze horas, cansada, com fome, morrendo de calor e não podia tirar nenhuma das duas blusas de frio que me disfarçavam as formas femininas. Pegando no rosto um gelado vento sombrio que trazia consigo o fedor do perigo que eu corria, andando sozinha em uma noite triste, frustrante e sem nexo, como as boas loucuras devem ser temperadas. Sim. Loucura. Insanidade temporária de uma mente fervilhando de idéias, vontades e tristezas. A idéia de sair andando sem rumo madrugada adentro, vinha em minha mente desde tempos imemoriais. Sempre morri de vontade de fazer isso, mas minha consciência sã não me permitia. Era preciso algo que me motivasse e cegasse completamente, ao ponto de mentir para sair de casa sem ser interrogada por muito tempo. Eu sabia que voltaria para casa. Só não sabia como. Depois de uma hora de perigos não consumados, chego ao meu destino. São mais de duas da madrugada e ele está lá, mas está dormindo e não pode saber que estive aqui. Não tive coragem de tocar a campainha, como já esperava, sendo a covarde que sou. Sentei na calçada do outro lado da rua, nas sombras, para que pudesse pelo menos passar despercebida por qualquer transeunte noturno. Infelizmente fui notada por um dos vizinhos da rua. Ficou super desconfiado e passou a me vigiar. Tirei o capuz e o lenço da cabeça para mostrar que era uma mulher que estava ali e que não represento perigo algum. Ainda não tinha certeza de como voltar pra casa, a mais de uma hora de caminhada de onde eu estava. Podia ter que voltar a pé. Não. Perigoso demais. Moto táxi. Eu tinha dinheiro, e um celular. Mas o celular estava sem crédito. Não queria ligar pra casa e acordar minha mãe. Não quando havia dito pra ela que só desceria até o portão da frente pra conversar com ele. Eu poderia descer até o posto policial e pedir pra chamar um moto táxi. Não, não. Tinha que ligar pra casa. Mas como explicar o que eu estava fazendo na casa dele, justo a essa hora? Mas como sempre, eu penso em tudo antes de fazer uma besteira. Com roupas masculinizadas, cabelos presos e em cima deles um lenço de caveiras, capuz da blusa por cima, e uma jaqueta forrada para não me deixar passar frio, e esconder o resto do meu corpo. Eu devia ter colocado a calça dele que estava em casa. Mas essa jeans que eu estava foi o suficiente. Ninguém mexeu comigo na rua. Sorte a minha, saber como interpretar um papel masculino. E o devo ter feito muito bem. Pelo menos não me assediaram. Não levava comigo carteira nem qualquer outra coisa que pudesse chamar a atenção de gente de má fé. Comigo estava a chave de casa, quinze reais no bolso pra alguma emergência, meu RG e CPF, e meu Black Safira. Estava perdida em meus devaneios ensandecidos, quando meu celular toca. “QG” diz o identificador de chamadas. Minha mãe. Depois de falar menos de cinco minutos com ela, eu já estava esperando o moto táxi na frente da casa do dito cujo. Conversando com o motoqueiro, percebi o quão louca e irracional eu havia sido. Mas pelo menos eu morreria tranqüila, sabendo que fiz uma coisa que estava apenas nos meus piores sonhos. Fuga. Não de casa, mas sim dos meus problemas. Como sou uma pessoa que não desconta a raiva nos outros (pelo menos eu tento), guardo-a para mim e sei que faz muitíssimo mal, saí para arejar a cabeça. E falar com ele. Se não queria me ouvir no telefone, me ouviria pessoalmente. Mas eu sabia que mesmo que conseguisse chegar lá, não tocaria a porcaria da campainha. O moto táxi chega em casa, eu me despeço dele e entro em casa. Com uma baita dor de cabeça, fome e sono. Tomo um leite e venho ao computador de onde saio e vou direto pra cama, acordar de todas as minhas preocupações e dificuldades.

Magamesk

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