24 outubro 2011

Exílio


Das tuas águas tão verdes
nunca mais me esquecerei.
Meus lábios mortos de sede
para as ondas inclinei.
Romperam-se em teus rochedos:
Só bebi da que chorei.

Perderam-se os meus suspiros
desanimados, no vento.
Recordo tanto o martírio
em que andou meu pensamento!
E os meus olhos ainda giram
como naquele momento.

Os marinheiros cantavam
Ai, noite do mar nascida!
Estrelas de luz instável
saíam da água perdida.
Pousavam como assustadas
em redor da minha vida.

Dos teus horizontes quietos
nunca mais me esquecerei.
Por longe que ande, estou perto
Toda em ti me encontrarei.
Foste o campo mais funesto
por onde me dissipei.

Remos de sonhos passavam
por minha melancolia.
Como um náufrago entre os sábios,
meu coração se valera.
-Mas nem sombra de palavras
houve em minha boca fria.

Não rogava. Não chorava.
Unicamente morria.

Cecília Meireles

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